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Na década de 70, 30% da população brasileira moravam nas cidades e 70% nas zonas rurais. Hoje, 76% vivem nas cidades e 24% no campo. Essa rápida movimentação provocou nas pessoas que trocaram a vida do campo pela cidade uma crise de sentimentos. Em novo ambiente, longe das suas referências campestres, a nostalgia veio e se instalou no coração dos nossos pais e avós. Nostalgia quer dizer “dor da ausência do ninho” – (nosto – ninho; algia – dor).

Para compensar a perda do ambiente em que foi criada, a nova população urbana, melancólica, começou a se interessar por músicas e assuntos que lhe fizessem lembrar o bucólico ambiente rural. Ainda na década de 70, Elis Regina cantava “Eu quero uma casa no campo…”, Benito de Paula dizia que “Estava na cidade grande e que a saudade era tamanha…” e Agnaldo Timóteo “Queria voltar para os verdes campos da sua terra…”. Era a  “Saudade do Matão” em versões atualizadas.

De início, os nostálgicos buscaram referências em Pena Branca e Xavantinho, Milionário e Zé Rico, Cristian e Ralf e, é claro em Tonico e Tinoco, que ainda dominavam as paradas. Em pouco tempo, o  fenômeno foi se intensificando e acabou gerando a indústria milionária do neo-sertanejo com representatividade em Zezé di Camargo e Luciano, Leandro e Leonardo, Xitãozinho e Xororó – cujo nome a dupla retirou de uma antiga letra de Tonico e Tinoco “Inhambu-xintã e o Xororó”. Do chamado sertanejo autêntico – de raiz – cheio de melodramas, lamentos chorosos e tristezas sem fim, às novas letras, motivos e formatos musicais foi um pulo.

Na cidade, os herdeiros dos que migraram já não se interessavam tanto pelos temas rurais. Era preciso deixar a música mais próxima do gosto do novo cidadão. E a urbanização das letras começou a dar sinais com a música “Fuscão Preto”, de Almir Rogério, em 1982. A turma começava a se motorizar. A indústria automobilística, implantada por JK, anos antes, ganhava músculos.

Os que já moravam nas cidades há gerações, torceram o nariz pelo novo gosto musical da periferia e cometeram o mesmo erro que hoje se comete com a nova classe popular brasileira: querer julgar a sua estética.

Dos temas líricos e campestres as letras começaram a abordar assuntos como traição, ciúmes, abandono da mulher amada, diferenças sociais e, com algum resquício, a dor de morar na cidade grande. A mesma nostalgia acometeu nossos poetas e cronistas: Drummond se considerava “sozinho na América”, Rubem Braga ainda falava de “passarinhos e compadres” e Adélia Borges “tinha saudades do Liso”.

Com o tempo, o filão neo-sertanejo começou a se esgotar. A nostalgia já não tinha lugar nas mentes dos netos e bisnetos dos antigos migrantes. A música popular sertaneja foi perdendo força e a sua riqueza musical, traduzida em boas letras e harmonias, foi sendo substituída pelo ritmo alucinante do tchimbum, tchimbum, das novas batidas do funk, do hip-hop e sei lá mais o quê. A urbanização estava completa, a garota subiu na laje e os manos tomaram conta do pedaço.

Assim são as coisas, assim o marketing funciona, tenta enxergar as informações não ditas sobre o comportamento das pessoas e transformá-las em vendas. O rico filão da música sertaneja existiu porque nossos pais e avós estavam com saudades do ninho. O que virá por aí, não sei, ainda não percebi.

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