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Preste atenção nos novos desenhos animados. Aliás, nem sei mais se ainda podemos chamá-los de desenhos animados, de tão cheios de tecnologia e atores reais que estão. Vale a pena assistir a eles, curtir e assistir novamente dezenas de vezes, mesmo que não se tenham filhos pequenos ou netos para fazer companhia. Histórias consagradas estão sendo desconstruídas e cedendo lugar a uma rápida modernização de temas. No filme “Deu a Louca na Chapeuzinho”, o vilão não é mais o lobo mau, mas a vovozinha, uma velha skatista, perita em manobras radicais e nas artes marciais e que empreende fugas e perseguições no movimentado estilo James Bond.

“A Era do Gelo”, o terceiro filme da série, é um primor em diálogos inteligentes e bem construídos. Pasmem: nasce um bebezinho mamute em uma cena de impressionante ternura, apesar dos perigos que rondam a mamãe no hora do parto. Pensar que Walt Disney jamais casou o Pato Donald porque não pegava bem para a moral conservadora da época…

A mudança conceitual começou com Shrek, um ogro enorme e esverdeado que prefere ser o que é – fiel a si mesmo – do que um “emo”- príncipe, bonitinho, desajeitado e sensível, como eram os nobres de até então. A sociedade mudou e a realeza idem. Nas novas histórias, príncipes perdem privilégios, princesas sabem se virar sozinhas e autoridades são ironizadas em paródias deliciosas. Sem nenhum constrangimento, argumentos intelectualizados e não-conformistas expõem os deboches que os adolescentes gostariam de falar na frente dos seus pais e não falam. Princesas modernas já podem soltar pum.

A grande revolução tecnológica na arte da animação foi realizada por Steve Jobs que, além de transformar a telefonia celular, a internet e a computação, também se meteu na indústria do entretenimento ao comprar de George Lucas o estúdio Pixar e transformá-lo no mais revolucionário centro de produção de Hollywood. Depois de “Toy Story” – o primeiro desenho com alta tecnologia – o mundo do desenho animado nunca mais foi o mesmo.

“A Fuga das Galinhas”, “O Corajoso Despereaux” e “Procurando Nemo” tratam dos temas da opressão, medo e amor filial sob uma ótica moderna. O Gato de Botas reaparece com perfil latino, sedutor e muito mais astuto do que o original. A construção refinada do personagem com a utilização dos trejeitos e da voz de Antonio Bandeiras apimenta o felino espadachim. Idem para Johnny Depp em “A Noiva Cadáver”, conto russo ambientado na Inglaterra vitoriana, quando começaram a esboçarem-se as lutas de classes e as possibilidades da ascensão social.

Os novos e tecnológicos contadores de histórias zombam das fórmulas originais parodiando-as em uma miscelânea de assuntos onde se aglutinam trechos, situações e personagens alheios. É o remake do remake do remake.
A contação de histórias, antes usada para a transmissão de valores morais e culturais de uma geração para outra, não foi criada para as crianças. Elas só entraram no contexto por volta do século XVI, quando deixaram de ser consideradas pequenos adultos para ser tratadas como devem ser – crianças. Walt Disney só reforçou o assunto ao se apropriar de antigas lendas e fábulas.

Os novos desenhos querem nos dar o recado de que a era da inocência acabou, que ser conformista e aceitar o destino como ele sempre foi não é uma boa e que nem sempre ser bonzinho é o melhor negócio. Alertam que, assim como nós, os heróis envelhecem e estão sujeitos a crises existenciais, e que casar e viver feliz para sempre, só nos velhos contos de fadas. A fantasia, hoje, está muito mais perto da realidade.

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