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Há tempos observo suas asas elegantes cruzando os céus da cidade, tão logo os raios de sol começam a esquentar o ar nas primeiras horas da manhã. São as garças do Passeio Público que, em voos solitários, em duplas ou em pequenos grupos, dirigem-se aos seus campos de caça: os parques do Iguaçu, Barigui, São Lourenço, Bacacheri e Santa Cândida, sendo que algumas chegam até a Represa do Passaúna. É uma movimentação ordenada, pontual e metódica que se repete dia após dia, mês após mês, ano após ano.

Voam silenciosas e poucos as percebem, pois, ao contrário da maioria dos pássaros, garças quase não emitem ruídos ou cantos. Sem pressa, cortam a cidade em evoluções, parecendo dispor da eternidade da natureza para realizar seus deslocamentos. Enquanto nós, abaixo, nos animamos nas horas frenéticas do rush, o relógio para elas gira mais devagar. É o ritmo das estações que regula suas vidas.

Ao chegar aos parques dividem com os biguás, estes sim pássaros barulhentos, os pequenos peixes e sapinhos do local. Em sua caça à beira dos lagos e dos banhados, nos encantam novamente com sua plumagem de branco alvíssimo vestindo seus corpos magros e com seus longos bicos. Andam de forma compenetrada e elegante. A eficiência dos seus botes pode ser vista de perto; raramente erram um ataque.

Bem alimentadas, ao final da tarde dão meia-volta, como obedecendo a um rigoroso horário de repartição. Batendo um ponto invisível iniciam a volta para casa – o Passeio Público – sem paradas no meio do caminho. Novamente poderemos vê-las passando por cima dos engarrafamentos.

Não sei quando começou isso, mas tudo indica que houve uma superpopulação de garças no Passeio Publico, os peixes rarearam e elas descobriram novos campos de alimentação na periferia da cidade. Ou será que elas já faziam isso há muito antes de ocuparmos os campos e colinas deste lugar chamado Curitiba. O inglês Thomaz P. Bigg-Wither, ao passar pela nossa cidade por volta de 1872, disse que viu marrecas, garças, socós e saracuras no grande banhado que era o Passeio Público. É o equilibrio biológico cumprindo sua tarefa – corrigir o que os homens destroem.

Como quase todos os sábados, fui com minha mulher à feira de alimentos orgânicos do Passeio. Enquanto escolhíamos nossas compras ouvi um alarido de pássaros acima da  cabeça. Procurei localizar a origem e lá estavam elas, as garças. Era época de nidificação: acasalamento, postura e choco. Dezenas delas empoleiradas nas árvores a disputar espaço para cuidar melhor dos seus filhotes. O imenso dossel branco parecia um ninhal daqueles que encontramos com facilidade no pantanal mato-grossense, em pleno centro de Curitiba.

Comentei com a moça que nos atendia: “Olhe um ninhal, são as garças em tempo de filhotes.” Ela virou a cabeça, olhou para cima e forçou os olhos. Só então se deu conta do belo espetáculo acima da sua cabeça: “Puxa! Estou aqui há meses e nunca percebi isso. Que bonito. Eu não tinha ideia de que esse barulho era por causa delas.” Assim são os curitibanos, não percebem seus vizinhos mais próximos, mesmo que seja um bando de garças ruidosas.

Acostumados ao ambiente urbano, poucas vezes levantamos os olhos ao céu para ver o que acontece acima de nós. Não nos damos conta de que outros habitantes também convivem no espaço urbano que ocupamos. Faço um convite, more onde morar em Curitiba, erga os olhos para o céu nas primeiras horas da manhã, veja o gracioso e solitário voo das garças do Passeio Público e perceba que nem só os humanos se deslocam para o trabalho todos os dias. E nos finais de tarde, por segundos, observe a suave volta para casa dos seus vizinhos alados. Aproveite e prepare seu coração para o merecido repouso dos guerreiros do dia-a-dia: nós e as garças do Passeio Público.

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