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A ideia e o termo “desobediência civil” começou a ser empregado pelo poeta, filósofo e ativista Henry David Thoureau por volta de 1849 como  forma de protesto contra a opressão do poder político-estadal. O novo modelo de enfrentamento, que nasceu quase junto com as repúblicas, foi motivo de debates e considerações por vários tipos de pensadores, políticos e intelectuais – esquerda e direita e, até pela turma do “muito pelo contrário”. Vingou com enorme força política e de mídia ao guiar os atos de Mahatma Ghandi, que conseguiu com “a não ação” promover a independência do seu país, a Índia, até então sob jugo inglês. Virou a base da pregação do pastor Martin Luther King e ficou condensado no seu famoso discurso I Have a Dream. O pastor King, de tanto desobedecer a ordem vigente, conseguiu mudar para sempre a tumultuada relação brancos e negros nos Estados Unidos. Outro a adotar a “desobediencia civil” como causa, mas de uma forma não tão pacífica, até pelas peculiaridades da sua especialidade, foi o lutador de boxe Cassius Clay ao se recusar a servir na Guerra do Vietnã.

Curiosamente, prestando atenção em algumas letras do Adoniran Barbosa, que além de grande compositor e letrista era conhecido como uma figura cordial e carinhosa, encontrei o inverso. Retratando os jogos do poder da sua época Adoniran descreve uma espécie de “concordância civil”, onde os desvalidos respeitam as leis e o poder. Confira comigo,  na música Saudosa Maloca conta a história de que morava com parceiros em uma velha casa e o dono mandou derrubar. Vejam a letra.

…Mais, um dia
Nem nóis nem pode se alembrá
Veio os homi cas ferramentas
O dono mandô derrubá
Peguemo todas nossas coisas
E fumos pro meio da rua
Aprecia a demolição

Mato Grosso quis gritá
Mas em cima eu falei:
Os homis tá cá razão
Nós arranja outro lugar…

Em outra música o personagem constrói um barraco, sem a devida planta e documentos e num terreno que havia comprado, não invadido. Vejam o que aconteceu:

…Construí minha maloca
Me disseram que sem planta
Não se pode construir
Mas quem trabalha tudo pode conseguir

João Saracura que é fiscal da Prefeitura
Foi um grande amigo, arranjou tudo pra mim

Minha maloca, a mais linda que eu já vi
Hoje está legalizada ninguém pode demolir…

Depois, Adoniram vê amigos sendo despejados de uma favela  –  o fato é real – e ele acata a ordem superior: se tem que sair, sai pacificamente, sem reclamar. “É uma “ordem superior”, diz o refrão. Ele obedece, mas deixa a pergunta que não quer calar até hoje: “Mas essa gente aí, como é que faz?”

Quando o oficial de justiça chegou
lá na favela e contra seu desejo
entregou prá seu narciso
um aviso, uma ordem de despejo,
assinada: seu doutor,
assim dizia a petição:
dentro de dez dias quero a favela vazia
e os barracos todos no chão,
é uma ordem superior
ô, ô, ô, ô, ô, meu sinhô,
é uma ordem superior

não tem nada não,
seu doutor
não tem nada não
amanhã mesmo vou deixar
meu barracão
não tem nada não, seu doutor
vou sair daqui

Ô, ô, ô, ô, ô, meu sinhô,
mas essa gente aí, hein?
Como é que faz?

Já na letra de “Um Samba no Bixiga” ele mostra uma polícia amiga e contemporizadora. O sargento Oliveira, em vez de chegar, como nos dias de hoje, metendo bala, aparece para remediar a situação.

…dali a pouco escutemo a patrulha chegá
e o sargento Oliveira falá

num tem importância
foi chamada as ambulância
carma pessoal,

a situação aqui está muito cínica
os mais pior vai pras clínica…

Enfim, o compositor, que recentemente faria 100 anos, retrata outras condições e contextos e descreve o comportamento de uma época em que o respeito às leis vigentes era regra de convívio social. Os tempos mudaram e o jogo do poder agora é outro, a “desobediência civil” de Thoureau deixou de ser pacífica e o respeito às autoridades não existe mais, mesmo porque elas próprias não se dão mais ao respeito.

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