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De vez em quando solicito ajuda ao mestre Nelson Rodrigues para me explicar estranhos comportamentos humanos. Ele foi imbatível na criação de frases lapidares, dessas que encerram qualquer questão. Por exemplo, é dele a frase: “Toda unanimidade é burra”. Isto é, quando todos concordam com alguma coisa, com certeza, há algo de errado com ela.

 Não sei o porquê, mas existem alguns assuntos da área da administração empresarial que beiram a “burrice” à qual o mestre se refere. É o caso da aceitação coletiva de alguns modismos que são recebidos como verdades absolutas e que ninguém se dá ao trabalho de questionar. Basta uma revista de negócios, jornal ou colunista falar bem de um modelo administrativo, da teoria de um novo guru ou de um livro qualquer, que este passa a ser, imediatamente, modelo de referência. Ora, a voz do povo nem sempre é a voz de Deus.

 É também o caso de algumas palavras que entram com facilidade e total liberdade para o jargão administrativo. Alunos, estagiários e iniciantes adoram citá-las a todo o momento. Poucos são capazes de dizer os seus reais significados e aplicá-las nos contextos corretos. As que mais me irritam são: paradigma, acurácia, escopo e core-qualquer-coisa. Quando falarem alguma dessas palavras na sua frente, peça para o interlocutor explicar o que significam. Não vá se surpreender se o falante engasgar e desviar a conversa.

 Ouvi dizer que a gíria nasce nos ambientes penitenciários e serve como código para os detentos conversarem durante certo tempo sem que os guardas percebam sobre o que estão falando. Depois são decodificadas e ganham a rua. As palavras do jargão administrativo iniciam suas vidas irritantes nas apresentações das empresas de consultorias. Para impressionar os profissionais desse setor começam a divulgá-las. Das salas de reuniões passam para as escolas de administração e marketing e rapidamente, qual uma epidemia se espalha para o mundo corporativo.

 Também a má tradução de algumas obras da literatura administrativa colabora com esta divulgação. O tradutor, para explicar alguns conceitos difíceis de serem versados, usa uma dessas palavras, muitas vezes oriunda de ambientes que não são os do contexto empresarial. Paradigma, por exemplo, veio do ambiente científico. Lançada em livros, a nova palavra passou a ser usada no dia-a-dia e a partir daí, haja fígado para agüentar tanta baboseira.

 Outro dia, em uma reunião, um jovem apresentador nos brindou várias vezes com a palavra paradigma. Meu parceiro ao lado, um profissional respeitado, falou baixinho ao meu ouvido: “Parafraseando Goebells: quando ouço falar a palavra paradigma tenho vontade de puxar o revólver”.

 A administração empresarial, nos últimos tempos, está coalhada de gênios administrativos e muito pouco de boa administração. Se nos ocupássemos em apenas administrar nossas empresas e não tentar explicar como elas deveriam funcionar, acredito que estas seriam mais lucrativas e nós muito mais felizes e menos estressados.

Há pouco tempo, um excelente vendedor se queixava comigo. Ele precisava falar com seus superiores para receber a ordem de fechar uma grande venda e ninguém poderia atendê-lo dentro dos próximos dois dias porque estavam todos reunidos e incomunicáveis na sala de um hotel, discutindo, exatamente, o business plan da empresa. E o que a empresa mais precisava naquela hora era de mais business e menos plan.

O lutador Maguila, na sua maneira simples de explicar as coisas, descreveu certa vez a um jornalista como seria a sua técnica de luta contra um oponente. Ele não disse: “vou dar um up-down, um cruzado de direita ou vou deixar o adversário cansar até o nono round e depois vou fazer isto ou aquilo.” Disse: “Vou lá e quebro a cara dele.” Ora, o que é o boxe? Justamente isso: quebrar a cara do outro, não precisa explicar mais nada. A propósito, Maquila não quebrava paradigmas.

Convoco todos os adeptos da simplicidade a fazerem um downsizing (diminuição de tamanho) nos nossos modismos, palavras e chavões, e realizarem um benchmarking (tirar uma referência) com os velhos comerciantes de bairro. Aprender com eles a administrar nossas empresas com o falar simples e as contas na ponta do lápis. Porque menos é sempre mais.

 

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