Blog do Eloi Zanetti – Consultoria, Palestras e Artigos de Marketing, Criatividade e Vendas

Blog do publicitário e escritor Eloi Zanetti. Consultoria, palestras, artigos e tudo o que você precisa saber sobre marketing e vendas. Curitiba – PR | Rua Senador Saraiva 78 | Telefone 3026-0222

  • RSS
  • Linkedin
  • Facebook
  • Twitter
  • E-mail

Há anos atrás, dirigi um documentário sobre a cultura no Estado do Paraná. Quando estávamos no processo final da montagem, juntando as cenas de uma dança polonesa, realizada por um conjunto folclórico, apareceu o insight:
– Mas esta dança polonesa, cuja simbologia mítica é agradecer aos deuses pela boa colheita, só tem sentido lá, no seu país de origem, na região onde foi criada. Aqui no Paraná ela só tem valor como dança, espetáculo e manifestação estética. Por mais bonita que seja, por mais representativa que possa ser aos descendentes deste belo povo, ela não faz nenhum sentido para nós paranaenses.
Como bom perguntador, continuei conduzindo meu pensamento. Mas o que é, então, que faz sentido para o povo do Paraná? Alguns responderão: “O barreado”. Não! O barreado só tem significado em Morretes e Antonina. Ele não diz nada em Maringá ou Marechal Cândido Rondon. Outros poderão dizer: “E o porco no rolete e o fandango?” Também não, o primeiro é uma manifestação típica de Toledo e o outro, só do litoral: Cotinga, Valadares, Guaraqueçaba, nada mais.
Continuei a me perguntar: Mas o que é que pode, realmente, fazer sentido para todos nós paranaenses? Algo que tenha a capacidade de nos unir como povo. Uma manifestação que pertença a um só de nós e ao mesmo tempo a todos? Como o candomblé na Bahia, o vanerão no Rio Grande do Sul, a folia do divino em Minas ou o maracatu em Pernambuco? Depois de algum pensar, cheguei à uma conclusão e quero reparti-la com você:
Acredito que só o pinheiro tenha o poder da representatividade como nosso símbolo mítico. Ele seria como um totem sagrado, um objeto de veneração, uma marca, uma insígnia. Só mesmo a araucária é capaz de nos retratar como Estado. Ela está presente nesse território há mais de 250 milhões de anos e ocupava quase todo o Paraná quando os primeiros colonizadores chegaram.
Platão disse que só amamos aquilo que conhecemos. Fico abismado quando observo o quanto viramos as costas e somos negligentes com uma das árvores mais bonitas do planeta. Que em menos de cem anos conseguimos destruir as reservas de uma das poucas espécies ainda vivas, legítimas herdeiras da era dos dinossauros. E que recentemente foi vítima de maldosa campanha por parte de alguns políticos e fazendeiros que tentam de todas as maneiras brecar a formação de algumas reservas nos Campos Gerais. Reservas que não representam nada, comparadas em área com o que já foi destruído.
O movimento paranista, estimulado por Romário Martins e que ganhou expressão nos talentos de João Turin, Zaco Paraná, Lange de Morretes, Alfredo Andersen, João Ghelfi e outros, percebeu o potencial e a força do pinheiro como marca e o desenhou nas calçadas de petit-pavé das nossas ruas, nos monumentos e murais das praças.
Mas como nós paranaenses somos por formação um povo de negociantes e não de guerreiros, fomos adorar outro símbolo – o vil metal. E, em vez do pinheiro como força de união, passamos a adorar o bezerro de ouro da extração predatória e do comércio. Vendemos a nossa primeira chance de identidade já no início da nossa organização social. O único símbolo paranaense embarcou nos navios de carga em Paranaguá e foi virar mesas e cadeiras em outros países.
Alguns de nós já perceberam que nada paga a ausência dos pinheiros ao pôr-do-sol no horizonte dos nossos planaltos. Você pode estar pensando que sou ingênuo demais. Não, não sou. Na mitologia, o totem sagrado representa o reservatório da energia de um povo. E devemos respeitar os símbolos mitológicos, pois nossas raízes mais profundas estão todas lá. Quer outra explicação? É por não termos um mito inicial que somos tão desarticulados como povo e tão desunidos politicamente.
Chorem comigo pela extinção das nossas araucárias. Pois, num futuro próximo, nossos descendentes herdarão esse descaso. Serão como nós: uma tribo sem totem, um povo sem mito. Desarticulados, atravessando combalidos o deserto da nossa destemperança. Lembrando Drummond poderão dizer: “Este pinheiro é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói!”.

Você poderá gostar também de:

  • Pingback: A Grande Derrubada | Blog do Eloi Zanetti()

    • Caro Eloi,
      Revi,o belíssimo e instigante “A grande derrubada”,bem como o artigo “Uma cidade contra sua vocação”
      Participo da APAVE,Associação dos Protetores das áreas Verdes de Curitiba e Região Metropolitana e do Forum Permanente de Defesa do Rio Bariguí.
      Após as recentes medidas legais,que vedam o uso do Potencial Construtivo Verde,oriundo das poucas Reservas Particulares de Preservação Permanentes de Curitiba(RPPNM),na, veja a ironia,”Linha Verde”,eu já “tinha jogado os betes”.
      Teus documentários e artigos,tem o dom,de mais uma vez,nos insuflar,se não otimismo,pelo menos a noção do dever.
      Dever de continuar lutando.Dever de legar.
      Vamos em frente!
      Eurico Borges dos Reis

  • EMANOEL CALDEIRA

    Caro ZANETTI, recentemente pude apreciar um pequeno trabalho do LUIZ RICARDO ESMANHOTTO, CURITIBANO que conhece bem a nossa cidade, que em passos pelo centro de CURITIBA, mais precisamente região do entorno da rua DR. FAIVRE, fotografou e catalogou alguns exemplares, dos que aindas estão em "PÉ", com seus respectivos endereços. Achei MUITO interessante.

  • Georg Viktor

    Pois é meu caro mestre do MBA. O totem que tanto precisamos estamos dizimando. Que pena. Nem o Lixo que não é lixo está sendo separado. Parece que as coisas não pegam aqui no nosso Paranazão. Quer um exemplo? O sinal de seta dos carros, o respeito ao pedestre… Pode ser que seja esta flata de identidade que nos transforma em pessoas distraídas e sem bom rumo. Belo artigo. Mexe com os sentimentos.