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Meu artigo da Revista Batel Life Style deste mês. Confira a revista na íntegra no link: http://bit.ly/r2byXi

Desde que as transformações urbanísticas iniciadas em Curitiba há quase 40 anos começaram a fazer efeito, elevando-a a categoria de “uma das melhores cidades brasileiras e do mundo para se viver”, por aqui não param de chegar novos moradores.

A atração causada pela fama de cidade limpa, organizada,com áreas verdesbem cuidadas e boa qualidade de vida trouxe gente de vários tipos e regiões. Todos em busca do pássaro azul – o imaginário bom lugar para se viver. Conheci um famoso psiquiatra carioca que se mudou aos poucos. Deixou a família no Rio e vinha trabalhar aqui até formar sua nova carteira de pacientes. Ao se sentir estabelecido trouxe a família. Uma empresária, também carioca, após ter sido assaltada e presa no banheiro do escritório por quase um final de semana, na segunda-feira juntou tudo e veio para Curitiba, sem nunca ter pisado aqui antes. Fincou raízes e hoje faz sucessoem seus empreendimentos. Umamigo de Araraquara, ainda jovem, chegou ao pai e disse: “Pai, me compra um terno, quero ir para Curitiba”. Veio, estabeleceu-se, casou-se com uma moça também de fora, e não trocam Curitiba por nada. Os gaúchos, como eternos gaudérios, chegaram aos magotes. É por isso que se ouve tanto rojão estourando nos finais de jogos do Inter ou do Grêmio. Se apurarmos os ouvidos perceberemos que fazem mais barulho do que nos jogos dos times locais.

É claro que o movimento também carregou outros tipos profissionais: bandidos, assaltantes e desempregados sem qualificação aproveitaram a onda e vieram conferir o mercado. Um amigo, mineiro, dizia há alguns anos: “O curitibano ainda não sabe ser assaltado, fica nervoso, ele tem ainda muito que aprender.”

Uma cidade que antes só tinha bairros, não periferias, de repente passa a suportar mais que o dobro de habitantes. O inchaço urbano, consequência do êxodo rural das últimas décadas, não é privilégio nosso: todas as grandes cidades, capitais ou não, passaram por processos parecidos. Mais gente para cuidar da saúde, andar de ônibus, educar e conquistar empregos.

A velha e tranquila cidade-sorriso, de trânsito calmo e organizado, por mais que tente, não consegue segurar a desorganização urbana. Vê suas áreas de risco sendo invadidas, seus eficientes e inovadores sistemas de transporte urbano começarem a falhar, e suas ruas apinhadas de carros, conquistados pelo crédito fácil que o governo oferece para agradar à classe popular emergente. O sonho dos que vieram começa a se desmanchar. A culpa não é da cidade, é do excesso de gente que chegou de uma hora para outra.

Muitos falam mal dos serviços urbanos de Curitiba e se esquecem de que estão pisando outro solo, o das cidades da região metropolitana. Como município, somos um dos menores do Brasil. Muita gente pensa que está em Curitiba, mas está em Pinhais, Piraquaraou Almirante Tamandaré, onde os serviços públicos oferecidos são de outras jurisdições. Papagaio come milho e periquito leva a fama.

Hoje, ao passear pelos nossos parques, áreas verdes e ruas percebemos a ameaça dos assaltos e dos incômodos da falta de educação da moçada. Não é sem razão que os nossos poodles-toys começam a ficar histéricos.

O parque Barigui, onde até recentemente se podia andar com tranquilidade, tornou-se inviável nos finais de semana. Visitantes, não acostumados à boa ordem pública, usam e deixam na “terra arrasada” seu lixo em forma de garrafas, sacos plásticos e latinhas de cerveja.

Outro fenômeno a ser observado são os preços dos nossos bares e restaurantes que subiram para acompanhar os congêneres paulistanos, sem a qualidade e a sofisticação dos mesmos. Curitiba não tem, como a Paulicéia, uma enorme quantidade de pessoas jurídicas para pagar a conta. Almoçar ou jantar com a família ficou difícil.

Da mesma forma, as incorporadoras estrangeiras que aqui chegaram nos últimos anos para abocanhar o pouco que ainda restava de terrenos próprios para construção, inflacionaram artificialmente os preços dos apartamentos da cidade. Começamos a pagar caro por aquilo que tínhamos de bom, sem poder contar com o poder de salário-compra dos paulistas. Os salários aqui são menores dos que os de lá. Curitiba é a cidade do interior de São Paulo mais próxima da capital, diz um amigo.

Ficar reclamando não dá; o que podemos fazer é aceitar o fato e misturarmo-nos ainda mais com os que aqui chegaram e tratar de reinventar uma nova cidade. O Ippuc e a prefeitura são pagos por nós para pensar sempre a melhor forma de organizá-la. Eles que voltem às suas pranchetas, redescubram o pensar criativo e o agir de forma audaciosa.

O novo curitibano, atraído pela fama da cidade, reluta em aceitar que a aposta pode ter sido errada e acredita que o paraíso imaginário ainda não está totalmente perdido. Se ele confia, por que nós não iremos também confiar?

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