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A propósito do link que publiquei no Facebook referente a matéria do Estadão sobre A Internet e o déficit de atenção o meu amigo Marcos Camargo escreveu este primoroso texto sobre o assunto.

 Vale a pena ler.

 Marcos Camargo

“De fato o desconhecido sempre causa em nós certa angústia, uma sensação de perda irreparável que nos acomete e parece descolorir o futuro que a gente imaginava.

Fico preocupado com o descrédito crescente da mídia-livro, em favor de outras mídias audiovisuais, cibernéticas, digitais – seja lá que nome que se dê a isso. O livro está conosco há milhares de anos e, como diz MacLuhan não é apenas um veículo de conteúdo, mas um modo de pensar. Pensar como livro é pensar linearmente, linha a linha, parágrafo a parágrafo, folha a folha, do começo ao fim. Pensar como um livro é submeter-se às regras gramaticais hierarquizantes de orações principais e subordindas, de regências verbais e nominais, de prefixos, sufixos, radicais, declinações, sintaxes etc. Pensar como um livro exige mergulho incondicional na intenção de um autor e deixar-se levar por seus pensamentos até que eles se tornem nossos por adição. Ler um livro é um ato de fé!

Já na internet e no videogame existe uma tal de interatividade que nos exige a iniciativa de construir nosso próprio percurso, investigando aqui e ali as pistas da informação que queremos, sem que alguém guie nossa mente pelas linhas de uma narrativa alheia. Somos obrigados a criar nossa própria narrativa. Desse modo, perdemos o direito ao mergulho reflexivo que experimentávamos quando o autor segurava nossa mão e nos guiava até os umbrais e cavernas de pensamentos abstratos que se desdobravam em outros pensamentos ainda mais abstratos deixando-nos perder em um mundo utópico sem comparação com a crua realidade do mundo concreto.

Perder o modo de pensar linguístico e literário é realmente angustiante, assim como deve ter sido angustiante para o público medieval que perdeu o canto gregoriano ou as iluminuras dos livros feitos a mão. Deve ter sido angustiante para o pessoal do Barroco perder seu modo de pensar para o Neoclássico e estes, para o Romantismo. Muitos conhecimentos foram perdidos quando se deixou de fabricar cravos…

Eu também não sei lidar com essas perdas. Dá a sensação de que a gente está ficando velho ou que só em nosso tempo a cultura era valorizada.

Daí me lembrei do Mito de Theuth contado por Socrates, pela pena de Platão. Diz a lenda que o deus Theuth presenteia o rei do Egito com uma invenção: a escrita. Ao que o rei respondeu ao deus declinando da oferta, por se tratar de uma invenção que provocaria o esquecimento do que se aprende, devido à falta de exercício da memória, que seria confinada em desenhos bizarros externamente gravados fora da alma, numa lápide, num pano ou papel. Essa invenção (a escrita) é apenas aparência de sabedoria – disse o rei -, porque não pode haver sabedoria verdadeira fora do homem. Ainda segundo o rei do Egito, respondendo ao deus Theuth, muitos daqueles que se entupissem dessa invenção julgar-se-iam sábios, quando continuariam ignorantes.

Hoje nós consideramos a escrita o veículo supremo dos conteúdos mais importantes da civilização – mas não foi sempre assim, como provavelmente não o será para sempre.

Outro dia li uma frase de Gilles Deleuze: “o profundo está na pele”. Perguntei-me, então, se a tradução não estava ruim, devia ser de uma outra “profundidade” que o pensador francês estava falando.

Quando nossa memória não precisa se ocupar em lembrar as informações armazenado-as numa tipo de escrita, podemos seguir adiante naquilo para o que o ser humano é mais habilitado: fazer relações entre dados e coisas e descobrir analogias, padrões e leis. Aí descobri o que Deleuze queria dizer: não há profundidade possível que não esteja na superfície. Isto é, uma folha de papel com letras em cima é uma superfície, mas que permite uma profundidade sem par. Informações são superfícies, são formas simbólicas – sejam letras, imagens, sons, sinais, movimentos – que permitem pensar. Não importa se vierem de livros ou de videogames. Quanto ao valor das informações, vai depender da época de cada um de nós!’

 

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