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Moro no bairro São Francisco e por aqui existem alguns pontos de moradores de rua; os mais frequentados são os do gramado ao lado do prédio da Telepar (sempre dizemos prédio da Telepar, por mais vezes que ele mude de dono) e o da pracinha do Cemitério Municipal. Moradores de rua, como em qualquer lugar do mundo, se fazem acompanhar de cães. Deve ser uma forma de se socializarem. Gosto de observar os grupos se movimentando – o líder, no caso, o morador de rua, ao se locomover, carrega consigo os cães que, obedientes, andam sempre atrás do chefe. Se ele para, os cães param, se ele dorme nas calçadas, os cães se aninham e esperam a ordem de se locomoverem. Cães de rua são sempre mais resolvidos, espertos e serenos do que os cães de raça. Eles sabem quem é o chefe e não discutem a hierarquia. Raramente atacam alguém e só brigam em caso de invasão intencional de território ou quando defendem o alimento.
Como adoro cachorro vila-lata, há tempos adotamos uma cadela de rua que havia sido atropelada em frente ao Shopping Cristal, daí seu nome: Cristal. Ela foi medicada, operada e se recuperou. Para não perder o costume, todo o dia pede para sair à rua, vai e só volta umas duas horas depois, faceira, alegre e feliz. Ao voltar, late no portão até que alguém a deixe entrar. A vizinhança já sabe quem ela é e onde mora. Nas suas andanças percorre o bairro sem coleira e sem estresse. Anda longe, já foi vista perto da Praça do Homem Nu. Às vezes ando com ela e percebo que, pela sua experiência, evita se meter em fria. Se enxergar ao longe alguma aglomeração ou um cachorro maior, trata de evitar o futuro obstáculo ou confusão desviando o caminho.

Contam que Tom Jobim e Vinícius de Moraes adoravam seguir grupos de cães pelas ruas, especialmente quando havia uma cadela no cio. Quando um deles descobria um bando ligava para o outro e saíam observando o comportamento da matilha. Era uma forma de se divertirem, flanar, observar o cotidiano e, talvez, preparar o espírito para alguma criação musical.

Durante certo período da minha vida, por viajar muito por cidadezinhas e lugarejos remotos, comecei a observar que o ritmo das populações locais é marcado pela movimentação dos seus cães. Se num povoado os cães estão em frenesi, andando para baixo e para cima, o comércio local está movimentado. Se os cães estão parados, descansando embaixo dos bancos de praças ou nos gramados, o lugarejo também está parado. Com o tempo comecei, só por brincadeira, a fotografar cães de rua de diferentes lugares, e colocava as fotos na parede do meu escritório. Havia fotos de cães em Guaraqueçaba, em uma zona de garimpo em Rondônia,em uma cidadezinha do interior do Mato Grosso e até de cães numa praia em Fernando de Noronha. Alguns amigos fotógrafos começaram a colaborar e me enviar fotos sobre o assunto. Em pouco tempo juntei uma galeria de imagens curiosas. A mais instigante, do meu amigo Ney Alves de Souza, era a de um cão andando e se equilibrando na borda de uma enorme cachoeira, dentro da água. Ele havia feito a foto no interior do Maranhão, quando levantava informações para o primeiro Guia Quatro Rodas a ser editado.

Cães de rua trazem a genética da mistura: todas as raças estão ali representadas. Assisti a um documentário sobre cães do terceiro mundo, e o trabalho falava das misturas das raças que ainda existiam nos países onde os cães ainda circulam de forma livre. As cenas foram feitas no México e no Brasil. É uma pena que, com o crescimento das cidades e por medidas profiláticas, os cães de rua estejam desaparecendo. Restam os que vivem acompanhados por seus donos, os moradores de rua e os que ainda sobrevivem nas pequenas cidades do interior. Quando têm a sorte de serem adotados por um dono, são serenos, calmos e resolvidos; quando não, passam fome, apanham muito, são assustadiços e andam com o rabo entre as pernas. Daí a expressão: “complexo de vira-latas” – com que Nelson Rodrigues cunhou a Seleção Brasileira da Copa de 58 – errou na previsão.

A Seleção vira-latas sagrou-se campeã.

 

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  • Anonimo

    "complexo de vira-latas" x "seleção vira-latas que sagrou-se campeã". Que antagonismo cheio de significados, acho que nunca mais vou olhar para um vira-latas da mesma forma. Lindo texto.

  • Maria A. Silva

    Apenas complementando a matéria, gostaria de informar às pessoas que ainda existem muitos cães vira-latas abandonados, sendo ultrajados por nós humanos.
    Independentemente de a "raça" ser extinta ou não, penso que todos aqueles que tenham a virtude da compaixão, devem adotar um cão de rua.

  • Maria A da Silva

    Continuação do comentário anterior
    Sou defensora desses bichos e os acolho, na medida do possível. Trabalho a recuperação destes animais (alimentação, vacinas, castração, etc.) e os levo para feiras, para adoção. Adoção esta assistida, ou seja, além de o adotante firmar um compromisso, via contrato escrito, onde constam todos as informações (documentos/telefones, etc.) do pretendente na adoção, as chamadas madrinhas do animal fazem visitas períidicas nos endereços onde o animal se encontra.
    Meu maior incentivo para esse trabalho é ver nas carinhas desses bichichos a ausência do medo, da fome, da trinteza profunda que sentem ao se sentirem abandonados. E é claro, com os rabinhos balançando e não no meio das pernas.
    Espero que um dia possamos não mais vê-los abandonados, e sim com seus respectivos donos, passeando pelas calçadas.
    Abraços
    Maria A. Silva
    Curitiba/PR