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Há um povo indígena no Acre que se autodefine Huni Kui, cuja tradução tem o significado de “gente verdadeira”. Um amigo que trabalha com tecelagem e é pesquisador dos corantes naturais da floresta brasileira me contou como esta tribo transmite os ensinamentos ancestrais para as novas gerações. São belos exemplos sobre a arte de ensinar, educar e trabalhar em equipe.

Por meio de rituais simples, mas de grande significado e sabedoria, eles imprimem de forma eficiente, de uma geração para outra, o que vêm aprendendo há séculos. Por exemplo, a iniciação ao estudo da tecelagem começa sempre na lua nova e antes de uma menina receber as lições a professora coloca sobre os seus olhos duas pedrinhas. Faz uma oração e pede que a criança enxergue mais e melhor do que ela vai ensinar. Em seguida, a avó desta menina leva-a para a floresta e juntas fazem cantigas à jibóia para que esta também ensine com perfeição todos os pontos do tear.

Os padrões da tecelagem da tribo chamam-se kenes e são inspirados no couro da cobra. Durante o tempo do aprendizado, enquanto realiza o trabalho, a aluna canta para chamar a força das pedrinhas e se manter concentrada na tarefa e no estudo.

Com certeza estes rituais preparam o aprendiz para a concentração no trabalho a ser executado, a se comprometer com a lição e a estabelecer compromissos contínuos com a qualidade.

Além disso, a tribo tem o seguinte conceito sobre o aprendizado: a melhor maneira de aprender as coisas é fazendo junto. Tudo é ensinado passo a passo. Não há pressa. A aprendizagem como um todo se estende até a fase adulta.

Os meninos aprendem com o pai o serviço dos homens e as meninas com a mãe o trabalho das mulheres. Enquanto vão ensinando, os mais velhos contam histórias sobre o porquê daquele trabalho e daquele jeito. Um dos indígenas explicou a este meu amigo que professores e alunos buscam “a memória do passado para compreender o presente e planejar o futuro.” É surpreendente que um povo com esse grau de evolução seja chamado de selvagem!

Os trabalhos artesanais e os desenhos desta tribo são reconhecidos pela alta qualidade. Cada padrão de imagem é baseado no couro da jibóia adulta. Como a cobra tem 25 padrões, eles podem fazer desenhos maiores em quantos formatos quiserem. É como lidar com as letras do nosso alfabeto, só que em desenhos.

É lógico que temos conhecimentos bem diferentes para passar aos nossos filhos. Nosso modo de viver é outro, talvez mais complicado, com ferramentas complexas e maior amplitude de disciplinas. Lutamos pela mesma sobrevivência de outra maneira e o tempo corre acelerado para nós urbanos.

Mas quero chamar a atenção para o modo como a tribo Huni Kui enxerga o aprendizado: há alguma coisa de sagrado no ato de ensinar e aprender entre eles. Existem rituais como o de fechar os olhos para ver melhor o que a professora ensina; de cantar para louvar o grande provedor de ensinamentos – neste caso, a cobra; de trabalhar alegre e cantando para chamar a atenção do aluno para a concentração no trabalho.

Nós entregamos nossos filhos às escolas e só nos preocupamos com a sua educação de vez em quando, ao darmos uma passada de olhos nos boletins ou quando somos chamados à orientação pedagógica para saber, sempre tarde demais, que nosso filho está com algum problema. A maioria de nós delega a tarefa sagrada do ensinar às professoras, esperando delas ações que deveriam ser da exclusividade dos pais. Muitos deixam crianças por conta de empregadas domésticas e da babá eletrônica. Depois, por culpa, enchem as crianças de presentes, mimos e estragos.

Não seria melhor ensinar fazendo junto, aproveitar melhor este curto espaço de tempo que temos ao lado dos nossos filhos? É pouco tempo mesmo. Quando se fica mais velho percebe-se isto. Então será tarde demais. Os pais se desculpam dizendo que têm que ganhar a vida, o trabalho ocupa todo o tempo, viagens e reuniões sem fim, o trânsito é um caos. Sei que com um pouco de disciplina e esforço pais e mães podem dar um suporte melhor à educação dos filhos.

Quando estiver em casa, na companhia deles, esqueça por completo os afazeres do dia-a-dia profissional e só pense na qualidade da sua presença. Pois se estiver com os filhos e ficar pensando no trabalho, não estará com eles, mas sim no trabalho. Faça como os Huni Kui, gente verdadeira, brinque sério de ensinar seus filhos. As futuras gerações agradecerão.

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  • Texto maravilhoso. Temos muito que aprender sobre educação com os Huni Kui. Alegria e participação dos pais! Quanta diferença!
    Abraços!
    Marcos Meier