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A ligação dos curitibanos com a praia – balneários – é antiga, mas não íntima. Somos o povo da selva, floresta, mais para sobrenomes Silva do que Costa, aqueles que colonizaram o Brasil pelo litoral. Nossos ancestrais vieram para cá, via Sorocaba, em lombo de burro – tropeiros. Por sermos gente de planalto mantemos certo estranhamento com os assuntos do mar.

Em nosso litoral, antigamente, só frequentavam a praia as famílias alemãs que dominaram durante certo tempo o poderio econômico em Curitiba. Com poder aquisitivo construíam belas e amplas casas em Matinhos, Caiobá e Guaratuba. Para a ilha do Mel iam os que precisavam de repouso e recuperação de saúde. Era um dolce far niente tranquilo porque os meios de acesso eram difíceis. Ia-se  pela areia da praia a partir de Pontal do Sul. As temporadas eram chamadas de estações e duravam até quatro meses. Até há pouco tempo víamos resquícios das primeiras casas construídas.

A partir da década de 60,  os curitibanos começavam a se motorizar e a classe média ascendente passou  a descer ao litoral em fuques, kombis, veraneios e ônibus de excursão. Os fuques, termo que o curitibano usava para nomear o Volkswagen, iam cheios. Competia-se para ver quem levava mais pessoas dentro do pequeno espaço. Na volta, o porta-malas vinha carregado com cachos de banana. A ida era fácil, descia-se pela Graciosa. O problema estava na volta: neblina, frio e o subidão da serra. Precisava-se de valentia para encarar o programa, mas todos voltavam felizes porque ir à praia era símbolo de status.

Como a pele branca do nosso povo arde fácil com a exposição solar, dizia-se que o curitibano ficava com “cor de água de vina”. Foi a época do grande consumo do hipoglós e do unguento extrato de butesin. Até a chegada do caladryl muitos se aliviavam com as receitas caseiras da água de maizena. Os masoquistas gostavam de competir e de exibir suas queimaduras. Muitas vezes, o sujeito chegava bronzeado, todo orgulhoso, e a maledicência do amigo curitibano perguntava: “Andou carpindo o quintal nesse final de semana?”

Com o pessoal que descia nos ônibus de excursão acontecia um estranho fenômeno – nem bem o último passageiro havia descido do veículo, o primeiro já estava se afogando e precisava de atendimento,  tal era a pressa em cair na água.

Com a inauguração da rodovia do Café, os moradores do Norte do estado que antes frequentavam Santos passaram a chegar mais – alugavam casa e dividiam o espaço entre três ou quatro famílias. O excesso de gente obrigava-os a dormirem no chão, pelos corredores e varandas. Mais tarde, o dinheiro da colheita engrossou e passaram a vir em sofisticadas camionetes com música sertaneja tocada em alto volume. Não demorou e pegaram a alcunha de “agro-boys”. Nunca a expressão “meu pai é rico e eu sou bestinha” foi tão bem empregada.

Registre-se para a história a construção do primeiro prédio alto do nosso litoral, o Mapi, em Caiobá –  durante muito tempo reduto dos abonados e das concorridas festas da Garota Caiobá, organizadas pelo colunista social Dino Almeida. Dino chamava carinhosamente Caiobá de “A Divina”. Com a criação da Caiobanda, o curitibano trocou os bailes de carnaval de salão pelo de rua. O entrudo, que nascera 100 anos em outras cidades litorâneas, demorou para aportar nas praias do Paraná. A gente sempre espera para ver se dá certo em outro local para depois adotarmos.

Hoje, com a chegada da classe popular ao consumo, o lugar mais democrático do Brasil – suas praias – passou a ser frequentado por todos, direito mais que justo. Invasão que mudou a forma de encarar as temporadas. Com os supermercados, farmácias, sorveterias e restaurantes cheios e as estradas congestionadas e perigosas há gente evitando ir às praias. Alguns, só fora de temporada, outros, procuram o Nordeste e o Caribe.  Uma boa parte vai passar o ano novo em Foz, em hotéis fazendas e outros, como eu, preferem ir às montanhas. A serra da Mantiqueira tem sido a opção da minha família há muito tempo.

No meio do “durma-se com um barulho desses” o melhor mesmo é ficar em casa e curtir a verdadeira praia do curitibano: o parque Barigüi.

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  • Danielle

    Genial Eloi,
    Aqui em España, sigo utilizando teus textos para as minhas clases, os alunos estão encantados e você começa a ser popular por estas terras.
    Um brande abraço amigo!
    Dani

  • Vinicius Alzamora

    Meu caro Eloi,

    que bela crônica. Emocionante. Quando estiver pelas bandas mineiras da Mantiqueira, lembre do amigo aqui.
    Grande abraço.

  • Christa

    Esta crônica entra definitivamente na categoria das impagáveis, principalmente para quem testemunhou todas as fases, tão bem descritas.
    Abraço.

  • Hipólito

    Goste, e agora que vou da europa direito para Curitiba, acho que nao vou precisar de praia.

    O Barigüi da para banho? 🙂

    Saude. Prazer le leer.