Blog do Eloi Zanetti – Consultoria, Palestras e Artigos de Marketing, Criatividade e Vendas

Blog do publicitário e escritor Eloi Zanetti. Consultoria, palestras, artigos e tudo o que você precisa saber sobre marketing e vendas. Curitiba – PR | Rua Senador Saraiva 78 | Telefone 3026-0222

  • RSS
  • Linkedin
  • Facebook
  • Twitter
  • E-mail

Sobre o affair Ronaldinho Gaúcho & Flamengo, reproduzo artigo que publiquei na época do Vampeta. Pelo menos este era mais autêntico.

“O Flamengo fingia que me pagava e eu fingia que jogava.” – Jogador Vampeta 

Entrevistado sobre seu relacionamento com o Flamengo, o jogador Vampeta saiu com a frase acima que, na sua simplicidade, retrata bem o atual comportamento do nosso povo: uma certa tolerância somada com uma boa dose de  hipocrisia no trato dos nossos assuntos mais sérios.

Estamos nos comportando como um país de fingidores, um lugar onde o cinismo, a dissimulação e o engano são aceitos como comportamentos normais e já incorporados, parece que de forma definitiva, como nossa maneira natural de ser e de agir. A arte de enganar e de aceitar com facilidade ser enganado permeia todos os níveis da sociedade brasileira, do cidadão comum às autoridades mais destacadas, das empresas ditas socialmente responsáveis e seus profissionais, aos campeões da arte de fingir, que são os nossos políticos e governantes.

Nunca a nossa sociedade se mostrou tão cínica quanto nos últimos tempos. Um professor universitário desabafou estes dias: “As escolas fingem que ensinam, os alunos fingem que aprendem e as autoridades fingem que se preocupam com o nosso maior problema, a educação”. Outro educador, especialista nas relações entre pais, filhos e escolas alerta em entrevista na TV: “Os jovens fingem que se preparam para estudos mais avançados, seus pais coniventes fingem que os observam estudar. O tempo passa e o futuro profissional fica só na promessa da realização”.

Ronaldinho Gaúcho

Ronaldinho Gaúcho. Agora integrante do Atlético-MG

Um headhunter indignado protesta: “Alunos de mestrado fingem que pesquisam a sério e seus orientadores fingem que aceitam bons trabalhos, os RHs dão ciência e arquivam os diplomas. O fingir ter o papel da diplomação é mais importante que o saber adquirido.” É só observar e constatar: empregados fingem que trabalham, seus chefes fingem que chefiam e todos aceitam como normal os trabalhos mal realizados. Com a mediocridade estabelecendo padrão de qualidade, estamos nivelando pela média e, a nossa média sendo baixa, podemos nos considerar todos medíocres.

Jornalistas mais críticos observam as suas áreas e dizem: os esportistas fingem que se esforçam por resultados, os modelos se fingem de atores e os pretensos músicos e cantores fingem que sabem tudo sobre música. Salvo uma pequena parcela do nosso povo, a arte da embromação está sendo aceita e incorporada pela maioria na nossa risonha e franca terra da fantasia.

Observe a quantidade de prêmios em algumas áreas. Na das causas comunitárias é enorme o número de empresas fingindo lutar por boas causas e de entidades que fingem observar e analisar seus falsos procedimentos e a lhes conferir prêmios nem sempre merecidos. Hoje, o fingir ser politicamente correto é premiado e divulgado à exaustão, nomes e ações de causas fakes estão nas revistas e jornais, sem nenhum constrangimento.

Enquanto os políticos e promotores simulam a realização de investigações, boa parte da imprensa finge abordar o assunto com propriedade e imparcialidade. O que fazemos? Olhamos para os lados e fingimos acreditar na boa intenção de todos.

Podemos dizer também que o governo finge arrumar estradas, que cuida da saúde pública e que a polícia e a justiça se preocupam com a segurança. Mas como podemos explicar ao mundo o sofrer eterno do nosso povo que morre às pencas no meio desta incompetência consentida?

A sociedade brasileira paga um alto preço pela sua transigência nos assuntos dos bons costumes e da civilidade: aceitamos com naturalidade a presença da falsidade nas nossas relações interpessoais, partilhando e não questionando as regras deste perigoso jogo. E, com a falsa esperança de que num belo dia, por si só, “isto tudo vai mudar”, não tomamos ações corretivas para mudar este nefasto modo de viver.

Falta-nos coragem para abrir os olhos, encarar e enfrentar nossa realidade de frente. De reclamar, bater o pé e ir até as últimas conseqüências contra o engodo e o trabalho mal feito. Vivemos, coniventes, mergulhados num mundo de fingimento e, deve ser por isso, que a nossa maior manifestação coletiva seja o carnaval, onde o irreal e a fantasia fazem parte do evento. Quer melhor simbolismo para retratar o nosso povo?

Cínicos, estamos nos acostumando ao sarcasmo. E com pesar lembro que a palavra “cínico” quer dizer: “agir como um cão”. Que injustiça aos nossos melhores amigos. E como disse George Meredith em sua peça The Egoist (1879): “Como os cínicos ficam felizes quando fazem para os outros um mundo tão árido quanto fizeram para si mesmos”.

Você poderá gostar também de:

  • Georg Viktor Kandauroff

    Quanta licidez neste artigo. Um verdadeiro tapa na nossa acomodada cara. Cara sem pintura de guerra. Caras pálidas de inanição diante do trágico caos. Ninguém mais está se indignando ou se revoltando. Todos nos acomodamos diante do “e daí?” – Não posso fazer nada mesmo! Coitado do colibri no incêndio. Acho que até êle cansou…

    Obrigado caro mestre, pelo puxão de orelhas.

    Georg